• Por José Evangelista Rios da Silva

    Resumo: O presente artigo analisa a trajetória da gestão urbana em Salvador, Bahia, sob a ótica do “empresariamento urbano” e da “acumulação por despossessão”. Investiga-se o nexo causal entre a alienação de ativos ambientais públicos (áreas verdes) e a cristalização de indicadores de precariedade social, como o desemprego estrutural e a violência endêmica. Através de uma análise em parallaxe, confronta-se o modelo de City Marketing com a realidade da fragmentação socioespacial e a captura do Estado por elites locais.

    1. Introdução
      A gestão das metrópoles brasileiras, e de Salvador em particular, tem sido marcada por uma transição do planejamento redistributivo para um modelo de “gestão de balcão”. Este fenômeno, intensificado a partir da década de 1980, caracteriza-se pela submissão do ordenamento territorial aos interesses da especulação imobiliária. O objetivo deste estudo é demonstrar que a crise de segurança e empregabilidade na capital baiana não é um subproduto acidental, mas o resultado de um projeto de governança que privilegia a alienação do patrimônio público em detrimento da função social da cidade.
    2. O Modelo de Desafetação e a Violação Constitucional
      A prática sistemática de desafetação de áreas verdes — transformando bens de uso comum do povo em bens dominicais para posterior leilão — confronta o arcabouço jurídico da República.
      2.1. O Princípio da Moralidade e a Impessoalidade
      O Art. 37 da Constituição Federal de 1988 estabelece a moralidade e a impessoalidade como pilares da Administração Pública. A recorrência de arrematantes de terrenos públicos vinculados ao financiamento de grupos políticos dominantes sugere uma captura institucional. A “gestão por adoçamento”, onde decisões estratégicas são tomadas em esferas privadas (metonimicamente representadas pela “Turma das Ilhas”), esvazia o papel fiscalizador do Poder Legislativo.
      2.2. O Meio Ambiente como Bem Coletivo
      A alienação de fragmentos de Mata Atlântica e encostas, sob o argumento de serem áreas “inservíveis”, agride o Art. 225 da CF/88. A ausência de Estudos de Impacto Ambiental (EIA) e Relatórios de Impacto de Vizinhança (RIV) em processos de desafetação em bloco viola o direito à cidade sustentável, conforme preconizado pelo Estatuto da Cidade (Lei 10.257/01).
    3. A Parallaxe da Violência e do Desemprego
      Enquanto a narrativa oficial utiliza indicadores lúdico-culturais e o turismo de eventos para forjar uma imagem de prosperidade, a “visão B” da parallaxe revela uma metrópole estagnada.
    • Dinamismo Econômico Decadente: Salvador apresenta a maior taxa de desocupação entre as capitais (14,1% em 2023-2024), fruto de uma especialização precoce no setor de serviços de baixa qualificação e no entretenimento sazonal.
    • Violência Funcional: A segregação espacial, reforçada pela venda de áreas que deveriam servir ao lazer e à convivência na periferia, cria “territórios de exceção”. A violência recorde é o sintoma de uma cidade “repartida”, onde o poder público municipal se retira da provisão social para atuar apenas na regulação do mercado de terras.
    1. O Papel do Legislativo e a Instrumentalização dos Bairros
      A Câmara Municipal, ao abdicar de sua autonomia e homologar “pacotes prontos” de alienação de terras, reforça um modelo de clientelismo moderno. A estrutura das “Prefeituras-Bairro” atua como um mecanismo de controle social e captação de apoio político, assemelhando-se a uma atualização tecnológica do coronelismo, mantendo a população dependente de intervenções cosméticas enquanto o solo urbano de alto valor é transferido para o “feudo” imobiliário.
    2. Conclusão
      A superação da crise sistêmica de Salvador exige o resgate do Plano Diretor de Desenvolvimento Urbano (PDDU) como instrumento de justiça social, e não de mercado. É imperativo que os órgãos de controle (Ministério Público e Tribunais de Contas) atuem na nulidade de processos de desafetação que ignorem a função social da propriedade. A transformação de Salvador em uma cidade habitável depende da interrupção do ciclo de liquidação de seus ativos ambientais e da implementação de uma economia de urbanização inclusiva.
      Referências Bibliográficas e Constitucionais
      Legislação:
    • BRASIL. Constituição da República Federativa do Brasil de 1988. Brasília, DF: Senado Federal.
    • BRASIL. Lei nº 10.257, de 10 de julho de 2001 (Estatuto da Cidade). Regulamenta os arts. 182 e 183 da Constituição Federal.
    • SALVADOR. Lei Orgânica do Município de Salvador.
      Doutrina e Relatórios:
    • ALFAYA, Javier. Salvador de Bahia: la ciudad y sus territorios. Sevilla: Universidad de Sevilla, 2000.
    • HARVEY, David. A Produção Capitalista do Espaço. São Paulo: Annablume, 2005.
    • IBGE. Pesquisa Nacional por Amostra de Domicílios (PNAD) Contínua. Indicadores de Desocupação e Rendimento. 2023-2024.
    • OBSERVATÓRIO DAS METRÓPOLES (Núcleo Salvador). Empreendedorismo urbano em Salvador: problemas e limites como estratégia de desenvolvimento socioespacial. Salvador: UFBA, 2024.
    • SANTANA, Olívia. Salvador: a cidade e seus desafios. Salvador: Assembleia Legislativa do Estado da Bahia, 2013.
  • Por José Evangelista Rios da Silva

    Resumo: O presente artigo analisa o pronunciamento televisivo de Taylor Swift em 12 de fevereiro de 2026, no qual classifica Donald Trump como “não apto para o cargo”. Investiga-se a denúncia de “rituais de lealdade” e a fratura da unidade nacional sob a ótica da secessão institucional norte-americana. O texto explora como a desintegração do soft power cultural antecipa o colapso do contrato social em cenários de polarização extrema e autoritarismo sistêmico.

    1. Introdução: A Superestrutura em Colapso
      Na teoria da práxis classista, a cultura atua frequentemente como a primeira linha de defesa ou o último sinal de alerta de uma sociedade em decomposição. O pronunciamento de Swift, marcado por uma “urgência somática”, sinaliza que o conflito de classes e a fragmentação política nos EUA atingiram a célula familiar — a base da reprodução social. Quando ícones do mainstream denunciam “decisões horríveis” impostas pelo Estado, encerra-se o período de hegemonia cultural passiva.
    2. “Inimigos em Casa”: A Secessão do Cotidiano
      A afirmação de que os estadunidenses tornaram-se “inimigos dentro de seus próprios lares” reflete o que Stephanie Brito descreveu como a transição para um estado de conflito civil prolongado.
    • Ritualística da Lealdade: A denúncia de “rituais de lealdade” sugere a imposição de mecanismos de controle ideológico que violam a Primeira Emenda da Constituição dos EUA, despojando o cidadão de sua dignidade em favor de uma fidelidade personalista ao Executivo.
    • As “Grietas” Permanentes: O alerta sobre fendas sociais irreversíveis coincide com o momento em que o Senado (Resolução 47) e o Pentágono buscam isolar a Casa Branca da autoridade militar, evidenciando uma “secessão institucional” de fato.
    1. O Colapso da “Marca USA” e a Reação do Sul Global
      A denúncia de Swift acelera o isolamento internacional do país, alimentando o Grande Boicote Americano.
    • Vampirismo e Repulsa: Enquanto Trump utiliza táticas de sequestro e asfixia contra a soberania de nações como Venezuela e Cuba, a denúncia interna de Swift retira o verniz de “defensor da liberdade” que Washington ainda tentava sustentar perante a ONU.
    • O Fim da Autoridade Moral: Para os países dos BRICS+ e da CELAC, o reconhecimento doméstico de que o líder é “não apto” valida a busca por alternativas de poder que ignorem o dólar e as diretrizes norte-americanas.
    1. Conclusão: A História não Perdoa o Absolutismo
      Como você
    2. O “diabo” de Washington tentou sequestrar o amanhã, mas acabou prisioneiro do ódio que ele mesmo semeou. Em fevereiro de 2026, o grito de Taylor Swift prova que a dignidade humana é o único mapa mental que o imperialismo não consegue sequestrar. A história está a ser escrita por quem se recusa a ser “inimigo em sua própria casa” e por quem entende que a soberania começa na consciência de cada cidadão.
      Referências Bibliográficas e Documentais
    • CONSTITUIÇÃO DOS ESTADOS UNIDOS. Primeira Emenda (Liberdade de Expressão) e Vigésima Quinta Emenda (Inaptidão Presidencial).
    • LIVE TV BROADCAST. Taylor Swift Statement on Presidential Fitness. 12/02/2026.
    • ONU. Declaração Universal dos Direitos Humanos: Artigo 18 (Liberdade de Pensamento e Consciência).
    • OPERA MUNDI. Estados Unidos e a Crise da Democracia Liberal. Entrevista com Stephanie Brito. 07/02/2026.
    • WOLFF, Richard. The Economics of Cultural Collapse and Imperial Decay. 2026.
    • LULA DA SILVA, Luiz Inácio. This Hemisphere Belongs to All of Us. New York Times, 18/01/2026.
  • ​Memorial de Transmutação: Renato Rabelo e a Eternidade da Práxis

    ​1. A Transmutação do Protagonista em Referência (A Ótica de Espinosa)

    ​Na filosofia de Espinosa, a morte é apenas uma mudança na proporção de movimento e repouso da matéria. Para um revolucionário da estatura de Renato Rabelo, esse processo é uma transmutação da potência individual em potência coletiva.

    • ​Ao deixar de ser o dirigente que executa, ele transmuta-se na ideia que orienta. Sua vida de protagonista — da Ação Popular à Presidência do PCdoB — cristaliza-se agora como uma “substância” que compõe o DNA político de todos os que defendem a soberania e o socialismo.

    ​2. O Método Pedagógico como Legado Vivo

    ​Como evidenciado em sua vivência na Escola Nacional, o legado de Renato não é estático. Sua prática de ouvir, anotar e sintetizar as divergências transformou a teoria política em um organismo vivo.

    • ​Academicamente, Rabelo operou o que chamamos de Intelectualidade Orgânica: ele não apenas interpretou o Brasil, mas forneceu as ferramentas (Socialismo no Século XXI) para que o povo brasileiro pudesse transformá-lo. A “honra” de sua história reside na generosidade de ter formado seus próprios sucessores.

    ​3. A Dimensão Internacionalista e a Harmonia Cósmica

    ​Seguindo a lógica da religiosidade cósmica de Einstein, a trajetória de Renato buscou a harmonia entre o particular (a luta no Brasil) e o universal (o socialismo mundial).

    • ​Sua transmutação ecoa para além das fronteiras brasileiras, alcançando o internacionalismo revolucionário. Ele compreendeu que a “unidade sistematizada do universo” exige que a luta por justiça em um país seja um reflexo da harmonia necessária em todo o planeta.

    ​4. Síntese Histórica: Do Protagonismo à Honra Eterna

    ​A partida de Renato Rabelo durante o Carnaval — a maior expressão da alma e do povo brasileiro — simboliza sua fusão final com a identidade nacional.

    • Para os Comunistas: Ele permanece como o mestre do método dialético.
    • Para os Democratas: Ele fica como o fiador da unidade e das frentes amplas.
    • Para o Povo Brasileiro: Ele consolida-se como um arquiteto da liberdade.

    ​Veredito de Paralaxe

    ​Renato Rabelo não é mais um indivíduo no tempo; ele tornou-se o próprio tempo histórico do PCdoB e da esquerda brasileira. Sua transmutação garante que, enquanto houver uma Escola de formação, uma célula partidária ou uma luta por direitos, a “energia irradiada” por sua vida de protagonista continuará a orientar o rumo da revolução.

    Renato Rabelo: Um legado de honra, cristalizado na história.

  • Por José Evangelista Rios da Silva

    Resumo
    O presente artigo analisa a ascensão da estética brasileira — denominada internacionalmente como Brazilcore — no cenário global entre os anos de 2025 e 2026. Através de uma perspectiva de paralaxe, investiga-se como elementos da cultura periférica e do cotidiano nacional foram transmutados em ativos de luxo e ferramentas de soft power. O estudo aborda a tensão entre a valorização da identidade nacional e o risco de esvaziamento sociopolítico por meio da apropriação mercadológica, confrontando a imagem de “potência criativa” com as realidades da estrutura produtiva brasileira.

    1. Introdução
      O Brasil de 2026 vive um paradoxo de visibilidade. Após décadas sendo exportador de commodities primárias, o país consolidou sua transição para uma economia de influência simbólica. O fenômeno Brazilcore, que teve início nas redes sociais (TikTok e Instagram), evoluiu de uma tendência passageira para um pilar de branding global, influenciando desde a alta costura parisiense até o design de consumo de massa.
    2. O Soft Power Brasileiro: Entre a Diplomacia e o Consumo
      O conceito de soft power, cunhado por Joseph Nye, encontra no Brasil atual sua expressão máxima. A influência não advém de coerção econômica, mas da capacidade de atração.
    • A Estética do Vigor: A música (funk, samba, bossa nova contemporânea) e a moda (Farm, Misci, Havaianas) criam um imaginário de “autenticidade” em um mundo digitalmente saturado.
    • O Novo Luxo: A pesquisa de mercado da Bain & Company (2026) aponta que o luxo brasileiro não reside mais na mimese do europeu, mas na exaltação da “brasilidade bruta” — o uso de materiais nativos, cores vibrantes e narrativas ancestrais.
    1. Análise de Paralaxe: A Dualidade da Representação
      Para uma análise profunda, deve-se observar o fenômeno por dois prismas divergentes:
    • A Visão do Mercado Global: O Brasil é visto como um reservatório de criatividade inesgotável e um destino de estilo de vida desejável. O “ser brasileiro” torna-se um produto de exportação de alto valor agregado.
    • A Visão do Chão de Fábrica e da Luta Social: Enquanto a estética periférica (o funk, o chinelo, a camisa de time) desfila em Paris, as estruturas que produzem essa cultura ainda lutam por reconhecimento institucional e direitos fundamentais. Há um descompasso entre a imagem do Brasil próspero e a realidade das relações de trabalho na base da pirâmide criativa.
    1. O Arcabouço Constitucional e a Defesa da Cultura
      A valorização da cultura brasileira não é apenas um fenômeno de mercado, mas um imperativo constitucional. A Constituição Federal de 1988, em seus artigos 215 e 216, estabelece que o Estado garantirá a todos o pleno exercício dos direitos culturais e o acesso às fontes da cultura nacional, além de proteger as manifestações das culturas populares, indígenas e afro-brasileiras.
    • Art. 216: Define o patrimônio cultural brasileiro como bens de natureza material e imaterial que portam referência à identidade, à ação e à memória dos diferentes grupos formadores da sociedade.
    • A “Brasilmania” de 2026 deve ser lida sob este prisma: a exploração comercial da imagem do país deve, obrigatoriamente, respeitar a integridade e a origem desses saberes, evitando o que a sociologia chama de “extrativismo cultural”.
    1. Conclusão
      O Brasil “está na moda” porque conseguiu oferecer ao mundo uma alternativa estética ao minimalismo estéril do norte global. Contudo, para que este movimento resulte em soberania nacional, é necessário que o reconhecimento simbólico se traduza em fortalecimento das instituições locais e proteção dos trabalhadores da cultura. O desafio para 2026 e além é transformar o “estilo brasileiro” em um projeto de desenvolvimento sustentável e justo.
      Referências Bibliográficas Relevantes
    • BRASIL. Constituição da República Federativa do Brasil de 1988. Brasília: Senado Federal. (Especialmente Artigos 215 e 216).
    • NYE, Joseph S. Soft Power: The Means to Success in World Politics. PublicAffairs, 2004.
    • BAIN & COMPANY. A nova era de crescimento do mercado de luxo no Brasil (Relatório 2025/2026).
    • SANT’ANNA, Mara R. Teoria de Moda: Sociedade e Identidade. Editora Estação das Letras e Cores, 2020.
    • HALL, Stuart. A Identidade Cultural na Pós-Modernidade. DP&A Editora, 2006.
    • CANCLINI, Néstor García. Culturas Híbridas: Estratégias para entrar e sair da modernidade. EDUSP, 2015.
    • BBC News Brasil. ‘Brazil core’: como se vestir de brasileiro virou moda no exterior. Outubro de 2025.
      Como este é um tema que envolve a
  • .Por José Evangelista Rios da Silva

    Resumo: O presente artigo analisa o enredo “Do alto do Mulungu surge a esperança: Lula, o operário do Brasil” sob a ótica da geopolítica interna e da formação de lideranças. Investiga-se como a narrativa do samba-enredo de 2026 articula a memória dos movimentos sociais, a resistência à ditadura militar e a consolidação de um projeto de nação pautado na justiça social e na soberania nacional.

    1. Introdução: O Samba como Instrumento de Agitação e Pedagogia
      O Carnaval, historicamente, atua como um espaço de disputa de narrativas. No contexto de 2026, a escolha da Acadêmicos de Niterói transcende o entretenimento para se tornar um exercício de pedagogia classista. A letra do samba não se limita à biografia individual, mas projeta a trajetória do operariado brasileiro, partindo da carência estrutural do Nordeste (o “retirante”) até a ocupação dos espaços de decisão (a “liderança mundial”).
    2. A Gênese do Sujeito Classista: Do Sindicalismo à Práxis Política
      A transição descrita nos versos “Da luta sindical / À liderança mundial” reflete o que a teoria do planejamento chama de acúmulo de capacidades cognitivas e organizativas.
    • A Escola do Sindicato: O sindicato é apresentado como a célula mater da consciência. É no embate direto com o capital que o “operário” deixa de ser objeto da história para se tornar sujeito.
    • O Conflito Distributivo: A letra expõe a contradição fundamental do capitalismo brasileiro: “A pobreza e o pranto se dividem para tantos / E a riqueza multiplica para alguns”. Esta é a base da análise de paralaxe: observar o mesmo fenômeno (o crescimento econômico) a partir de pontos de vista distintos — o do capital e o do trabalho.
    1. Memória Política e Defesa do Estado Democrático
      O artigo destaca a importância da intertextualidade histórica presente na citação de mártires como Vladimir Herzog, Rubens Paiva, Zuzu Angel e Henfil.
    • A Luta Anti-Hegemônica: Ao invocar esses nomes, o samba-enredo reforça que a soberania brasileira foi conquistada com o “preço da raiva” e do sacrifício.
    • A Questão da Anistia: O verso “Sem mitos falsos, sem anistia” introduz uma dimensão jurídica e constitucional, dialogando com o direito à memória e à verdade, essencial para que o “planejamento situacional” de uma nação não repita os erros do passado autoritário.
    1. Soberania Nacional e Geopolítica da Fome
      A análise da soberania é o ponto alto do texto acadêmico. O samba rejeita a visão subalterna do Brasil no cenário internacional:
    • Resistência às Sanções: O trecho “Sem temer tarifas e sanções / Assim que se firma a soberania” remete à autonomia da política externa brasileira e à capacidade de enfrentar pressões de blocos hegemônicos em prol do desenvolvimento interno.
    • Segurança Alimentar: A citação a Betinho e a urgência da fome vinculam a dignidade humana à segurança nacional. No pensamento classista, não há soberania se a base da pirâmide social não possui acesso ao consumo básico.
    1. Conclusão: O “Brasil da Silva” como Projeto Estratégico
      O enredo conclui que a ascensão social (“filho de pobre virando doutor”) não é um acidente, mas um projeto de planejamento popular. A vitória do “amor sobre o medo” é reinterpretada não como um slogan sentimental, mas como a superação do terrorismo político e econômico pelas forças da organização popular.
      Referências Bibliográficas e Fontes Constitucionais
    • BRASIL. Constituição da República Federativa do Brasil de 1988. Especialmente os Art. 1º (Soberania), Art. 3º (Erradicação da pobreza) e Art. 170 (Valorização do trabalho humano).
    • MATUS, Carlos. Política, Planejamento e Governo. Brasília: IPEA, 1993. (Fundamentação sobre o Planejamento Estratégico Situacional – PES).
    • ANTUNES, Ricardo. Os Sentidos do Trabalho: Ensaio sobre a Afirmação e a Negação do Trabalho. São Paulo: Boitempo, 1999.
    • SANTOS, Milton. Por uma outra globalização: do pensamento único à consciência universal. Rio de Janeiro: Record, 2000. (Base para a análise de paralaxe geográfica e social).
    • GOMES, Wilson. A Política no Carnaval e o Carnaval na Política. Ensaios de Cultura Popular, 2018.
    • ACADÊMICOS DE NITERÓI. Sinopse do Enredo 2026: Do alto do Mulungu surge a esperança. Rio de Janeiro: LIESB/Riotur, 2026.
  • Por José Evangelista Rios da Silva


    Resumo: O presente artigo examina as disparidades entre o valor nominal do salário mínimo e o custo efetivo de reprodução da força de trabalho na América Latina. Através de uma análise em paralaxe, confrontam-se os dados de Costa Rica, Chile e Uruguai com a realidade brasileira, utilizando como métrica o Salário Mínimo Necessário calculado pelo DIEESE. Conclui-se que a manutenção de pisos salariais abaixo da linha de subsistência biológica constitui uma ferramenta de controle social e extração de mais-valia absoluta pelas elites econômicas regionais.

    1. Introdução: O Salário como Variável de Ajuste
      A determinação do salário mínimo nos países da América Latina é frequentemente apresentada sob uma ótica puramente macroeconômica, ignorando a subjetividade e a necessidade material do trabalhador. Conforme observado em análises conjunturais de 2025 e 2026, países como Costa Rica, Chile e Uruguai ostentam os maiores valores nominais da região (variando entre US$ 550 e US$ 650). No entanto, a análise do “poder de compra” revela que esses valores são insuficientes para cobrir o conjunto de despesas básicas de uma família padrão (alimentação, habitação, transporte e energia).
    2. A Crueldade Estrutural: Brasil vs. Cone Sul
      A comparação entre as economias “estabilizadas” e a potência brasileira revela uma crueldade sistêmica na distribuição da riqueza:
    • O Modelo Chileno e Uruguaio: Em Santiago e Montevidéu, o salário mínimo de aproximadamente US$ 550 é consumido quase integralmente pelo custo de transporte e canasta básica, resultando em orçamentos negativos antes mesmo do pagamento do aluguel.
    • A Exceção Brasileira: No Brasil, a defasagem assume contornos históricos. Enquanto o salário oficial de 2026 foi fixado em R$ 1.621,00, o Salário Mínimo Necessário — fundamentado no Art. 7º da Constituição Federal — foi calculado em R$ 7.177,57 pelo DIEESE.
    1. Fundamentação Constitucional e o Direito à Vida
      A Constituição Federal Brasileira de 1988, em seu Art. 7º, inciso IV, estabelece que o salário mínimo deve ser capaz de atender às necessidades vitais básicas do trabalhador e de sua família com moradia, alimentação, educação, saúde, lazer, vestuário, higiene, transporte e previdência social.
      A realidade de 2026, onde o salário mínimo nominal cobre apenas 22,5% do valor necessário, demonstra uma violação sistemática do preceito constitucional. Essa disparidade é a “paralaxe da exploração”: do ponto de vista do mercado, o aumento de R$ 103,00 em 2026 é visto como um “limite fiscal”; do ponto de vista da classe trabalhadora, é a manutenção de um estado de insegurança alimentar planejado.
    2. A Soberania de Classe e a Luta pelo Ganho Real
      Conforme o debate classista contemporâneo, a superação deste cenário não virá da compaixão das elites, mas da rebeldia organizada. A pauta do SINTRASUPER, reivindicando um ganho real de 5% e o fim da escala 6×1, é uma resposta direta à política de arrocho. A sustentabilidade do setor varejista, que cresceu 9,1% na Bahia em 2025, prova que há riqueza para financiar a dignidade, mas falta vontade política e sobra ganância patronal.
      Referências Bibliográficas e Legislativas
    • BRASIL. [Constituição (1988)]. Constituição da República Federativa do Brasil. Brasília, DF: Senado Federal, 1988. Art. 7º, incisos IV e XIII.
    • BBC NEWS MUNDO. Los 3 países que tienen el salario mínimo más alto de América Latina (y para qué alcanza). Produção: Ana María Roura et al. Set. 2023.
    • DIEESE. Nota Técnica: Salário Mínimo Necessário – Janeiro/Fevereiro de 2026.
    • IBGE. Pesquisa Mensal do Comércio (PMC): Desempenho do Varejo na Bahia – Relatório Anual 2025.
    • SINTRASUPER/CTB. Relatório do Seminário de Planejamento da Campanha Salarial 2026. Lauro de Freitas, BA, Jan. 2026.
  • Por José Evangelista Rios da Silva

    Resumo: O presente artigo analisa as contradições inerentes à relação capital-trabalho no setor supermercadista de Salvador (BA). Sob a ótica da paralaxe classista, examina-se o abismo entre o faturamento recorde do setor e a pauperização da classe trabalhadora. Fundamentado nos dados do DIEESE e nos preceitos constitucionais, justifica-se a reivindicação do SINTRASUPER por ganho real de 5% e redução da jornada (escala 5×2), visando a sustentabilidade do meio ambiente laboral e a preservação da dignidade de milhares de pais e mães de família.

    1. Introdução: O Superlucro sobre a Mesa Vazia
      A dinâmica econômica de 2025 e o início de 2026 revelam uma assimetria gritante: enquanto o setor de supermercados na Bahia registrou crescimento de 9,1% na receita nominal, o poder de compra dos trabalhadores é corroído pela inflação seletiva de alimentos. A contradição central reside no fato de que o setor que comercializa a subsistência da nação é o mesmo que impõe a seus trabalhadores um ticket médio de R$ 17,50, valor insuficiente para adquirir uma refeição comercial digna em Salvador (custo médio de R$ 37,36).
    2. Fundamentação Constitucional e o Mínimo Necessário
      O Artigo 7º, inciso IV, da Constituição Federal de 1988 estabelece que o salário mínimo deve atender às necessidades vitais básicas do trabalhador e de sua família. Contudo, os dados de janeiro de 2026 demonstram que o Salário Mínimo Necessário deveria ser de R$ 7.177,57.
    • O salário vigente de R$ 1.621,00 cobre apenas 22,5% das necessidades básicas.
    • Essa defasagem estrutural justifica a exigência de ganho real de 5% acima da inflação (INPC), totalizando um pleito de 9,5% de reajuste, como mecanismo de recuperação mínima da dignidade produtiva.
    1. A Economia do Tempo: Escala 5×2 e Sustentabilidade Laboral
      A jornada de trabalho no setor, historicamente baseada na escala 6×1, configura uma expropriação do tempo de vida e do convívio familiar.
    • A proposta de alteração da CCT para a escala 5×2 não é apenas uma demanda econômica, mas um imperativo de saúde pública e mental, combatendo o adoecimento por esforço repetitivo e estresse ocupacional.
    • O argumento patronal de “falta de mão de obra” é refutado pela alta taxa de rotatividade (turnover), utilizada para achatar salários e evitar o pagamento de direitos adquiridos, como o triênio de 3%.
    1. A Proposta da Assembleia Geral: Mudanças na CCT 2026/2027

      A Assembleia Geral do SINTRASUPER, realizada em 26/01/2026, deliberou por alterações estratégicas na Convenção Coletiva de Trabalho (CCT) vigente:
      Cláusula Descrição Atual Mudança Proposta pela Categoria
      Salarial Reposição apenas do INPC Ganho Real de 5% (Total 9,5%)
      Jornada Escala 6×1 (44h semanais) Escala 5×2 (Redução para 40h)
      Alimentação Ticket de R$ 17,50 Valor de R$ 30,00 (Mínimo para consumo)
      Saúde Sem monitoramento específico Implantação da NR-1 para saúde mental Conclusão: Por um Ambiente de Trabalho Humano
      A lucratividade “gigantesca” mencionada no debate classista provém da extração de mais-valia absoluta e relativa sobre milhares de pais e mães de família em Salvador. A sustentabilidade do setor supermercadista depende, obrigatoriamente, da valorização de quem opera o sistema. A pauta de 2026/2027 é, portanto, um manifesto pela vida contra a exploração desenfreada do capital.
      Referências Bibliográficas e Constitucionais
      • BRASIL. Constituição da República Federativa do Brasil de 1988. Art. 7º, incisos IV, XIII e XXVI.
      • DIEESE. Nota Técnica: Salário Mínimo Necessário – Fevereiro de 2026.
      • IBGE/SEI. Pesquisa Mensal do Comércio: Desempenho do Varejo na Bahia (2025/2026).
      • SINTRASUPER & SINDSUPER. Convenção Coletiva de Trabalho (CCT) 2024/2025 e Proposta de Aditamento 2026/2027.
      • LULA, L. I. Discurso de Abertura do 16º Congresso do PCdoB (Outubro/2025) sobre valorização do trabalho.
  • Por José Evangelista Rios da Silva

    Resumo
    O presente artigo analisa as disparidades doutrinárias entre as principais escolas de Relações Internacionais do eixo Atlântico Norte e as novas vertentes de diplomacia provenientes do Sul Global e do Oriente. Através de uma lente crítica e sob a técnica da paralaxe — que observa o objeto de diferentes posições para captar sua profundidade — examina-se como a pedagogia das instituições da Ivy League e do Reino Unido permanece ancorada em teses clássicas de contenção e hegemonia, enquanto centros de formação na China, Rússia e Brasil buscam consolidar o modelo de desenvolvimento “ganha-ganha” e a multipolaridade ativa.

    1. Introdução
      A formação de quadros diplomáticos no século XXI enfrenta um impasse ontológico. De um lado, o sistema educacional consolidado pelo “Império do Caos” — termo geopolítico para designar a ordem unilateral pós-Guerra Fria — prioriza o Realpolitik neoconservador e a manutenção da primazia militar. De outro, emerge a necessidade de uma ciência política voltada à diplomacia do desenvolvimento, que privilegie a soberania e a cooperação pacífica em detrimento do uso bélico da força.
    2. O Atavismo Geopolítico nas Escolas do Eixo Atlântico
      As instituições de elite, como Harvard (Kennedy School) e Georgetown (SFS), embora detentoras de prestígio acadêmico, operam sob a lógica da “América para os americanos” e do Destino Manifesto.
    • A Persistência de Mackinder: A formação pedagógica nestes centros ainda é centrada no controle da Heartland e na contenção de Estados “revisionistas” (China e Rússia).
    • Diplomacia de Coerção: O currículo é desenhado para produzir especialistas em sanções, operações de influência e soft power instrumentalizado, transformando o diplomata em um gestor de hegemonia em vez de um mediador de conflitos.
    1. A Paralaxe do Sul Global: Brasil, China e Rússia
      Diferente da formação voltada ao conflito, as escolas diplomáticas destes países têm reforçado a tradição da paz ativa e do desenvolvimento soberano.
    • O Modelo Brasileiro: O Instituto Rio Branco mantém a tradição do universalismo, onde a diplomacia é um instrumento de busca por nichos de desenvolvimento e projeção de valores democráticos internacionais, sem o uso da força.
    • A Doutrina Chinesa: A formação em instituições como Tsinghua foca na “Comunidade de Futuro Compartilhado”, onde a infraestrutura (Belt and Road) substitui as bases militares como moeda de troca geopolítica.
    • A Visão Multipolar Russa: A MGIMO (Moscou) teoriza a transição do mundo unipolar para um sistema de grandes espaços soberanos, onde o respeito às zonas de influência e a paridade estratégica são as chaves para a estabilidade.
    1. A Crítica Classista à Institucionalização das Lutas
      Sob o rigor da análise classista, observa-se que as universidades ocidentais ocultam a relação entre o capital financeiro transnacional e a política externa. O “diplomata-falcão” atua como o braço institucional dos interesses das corporações, enquanto a diplomacia proposta pelos BRICS, apesar de suas contradições internas, abre espaço para uma inserção internacional que respeita as especificidades produtivas e as lutas sociais de cada nação.
    2. Conclusão
      A superação das velhas teses geopolíticas exige que a formação dos novos diplomatas e cientistas políticos se desvincule do marketing de imagem das universidades imperiais. O futuro da diplomacia global reside na capacidade de transitar entre os polos de poder sem o recurso à beligerância, focando na integração econômica complementar e na coexistência pacífica das soberanias.
      Referências Bibliográficas
    • BRAILLARD, Philippe. Teorias das Relações Internacionais. Lisboa: Fundação Calouste Gulbenkian, 1990.
    • DUGIN, Alexander. A Teoria do Mundo Multipolar. Curitiba: Editora Ars Regia, 2012.
    • LOSURDO, Domenico. A Linguagem do Império: Léxico da Ideologia Estadunidense. Rio de Janeiro: Boitempo, 2010.
    • MACKINDER, Halford J. O Pivô Geográfico da História. Rio de Janeiro: Biblioteca do Exército, 1904/2011.
    • MEARSHEIMER, John J. The Tragedy of Great Power Politics. New York: W. W. Norton & Company, 2001.
    • VIGEVANI, Tullo; CEPALUNI, Gabriel. A Política Externa Brasileira: A Busca da Autonomia, de Sarney a Lula. São Paulo: UNESP, 2007.
    • WANG, Yi. A Diplomacia da China na Nova Era. Beijing: Foreign Languages Press, 2022.
  • Por José Evangelista Rios da Silva

    Resumo: O presente artigo analisa o sequestro de Nicolás Maduro e Cilia Flores em janeiro de 2026 sob a perspectiva das contradições de classe e do colapso do Direito Internacional. Investiga-se a liquidação forçada da Citgo como expropriação do capital estatal periférico, o uso da tortura como ferramenta de desmoralização política e a subsequente “secessão institucional” no Senado dos EUA (Resolução 47) como anticorpo de um sistema imperial em chamas.

    1. Introdução: O Sequestro como Prática de Estado
      O ano de 2026 marcou a transição definitiva do “Império do Caos” para uma fase de pirataria institucional. O sequestro de líderes eleitos e sua submissão a torturas físicas e psicológicas representam a falência da diplomacia burguesa e a adoção do terrorismo de Estado como norma. Academicamente, este fenômeno deve ser compreendido como uma tentativa de “descapitalização política” do Sul Global, onde a eliminação do líder visa a fragmentação da classe trabalhadora organizada.
    2. A Expropriação da Citgo: Vampirismo Econômico
      A liquidação concluída da Citgo em 2026 não foi uma decisão judicial técnica, mas um ato de guerra econômica.
    • Acumulação por Despossessão: Ao confiscar o maior ativo externo da Venezuela, os EUA operam a lógica da acumulação primitiva aplicada ao século XXI.
    • Privatização Forçada: A asfixia gerada pelo roubo da Citgo obrigou o governo de resistência (liderado por Delcy Rodríguez) a uma abertura agressiva ao capital privado para garantir a sobrevivência básica da população, uma contradição imposta pela escassez de recursos.
    1. O Martírio e a Resistência: Contradições de Classe
      A tortura de Maduro e Cilia Flores teve como objetivo quebrar a espinha dorsal do chavismo, mas provocou o efeito oposto.
    • Solidariedade de Classe: A resposta das massas venezuelanas e da CELAC, liderada pelo Brasil, demonstrou que a agressão ao líder é sentida como uma agressão à classe trabalhadora regional.
    • O Eixo Delcy-Padrino López: A manutenção do controle pelo núcleo de segurança (Padrino López) e a gestão técnica de Delcy Rodríguez garantiram que a “anarquia” planejada pela inteligência ianque não se materializasse, mantendo a coesão do Estado sob cerco.
    1. O Colapso do Direito Internacional e a ONU
      As ações de força de 2026 violam os pilares da Carta das Nações Unidas.
    • Inexistência de Ritos: O sequestro e a tortura sem indiciamento ou julgamento lícito constituem crimes contra a humanidade sob o Estatuto de Roma.
    • Resolução 47 do Senado dos EUA: A revolta interna no legislativo norte-americano confirma que a “gangue de Trump” opera fora da própria constitucionalidade americana, gerando um risco sistêmico para a paz mundial.
    1. Conclusão: O Horizonte da Libertação
      O “Império do Caos” sequestrou o presidente, mas não conseguiu sequestrar a história. A aproximação estratégica com a China (sistema BeiDou) e a Índia (parceria Modi-Rodríguez) sinaliza que a asfixia imperial gerou os próprios anticorpos para a sua destruição. O sequestro de 2026 será lembrado como o momento em que o império perdeu a sua última máscara moral, obrigando os povos a reverem suas certezas e a buscarem a soberania definitiva.
      Referências Bibliográficas e Documentais
    • DOUHAN, Alena. Relatório sobre o impacto negativo das medidas coercivas unilaterais. Conselho de Direitos Humanos da ONU, 2025/2026.
    • FIORI, José Luís. O Império do Caos e a Nova Geopolítica do Petróleo. São Paulo: Terra é Redonda, 2026.
    • HARVEY, David. O Novo Imperialismo: Acumulação por Despossessão. (Edição revisada 2025).
    • ONU. Carta das Nações Unidas: Artigos 2(4) sobre a proibição do uso da força e soberania estatal.
    • WOLFF, Richard. The Economics of the Global Boycott and the Decline of the Dollar. 2026.
    • LULA DA SILVA, Luiz Inácio. This Hemisphere Belongs to All of Us. New York Times, 18/01/2026.
  • Por José Evangelista Rios da Silva

    Resumo: O presente artigo analisa a estrutura fundiária brasileira não como um acidente geográfico ou histórico, mas como um projeto político deliberado de poder. Através de uma perspectiva de classe, examina-se como a elite agrária — historicamente reacionária — moldou o Estado para garantir a concentração de terras, utilizando a violência e a institucionalização de conflitos para barrar a função social da propriedade. Conclui-se que a atual configuração latifundiária é um entrave soberania nacional e ao desenvolvimento humano.

    1. Introdução: A Gênese do Atraso
      A estrutura fundiária do Brasil é o exemplo mais longevo de “modernização conservadora”. Desde as Sesmarias e a Lei de Terras de 1850, o acesso ao solo foi condicionado ao capital e ao poder político, excluindo sistematicamente a massa de trabalhadores, ex-escravizados e imigrantes. O que a elite rotula hoje como “agronegócio pujante” é, em sua essência, a reedição do latifúndio agroexportador que prioriza o mercado externo em detrimento da segurança alimentar do povo brasileiro.
    2. A Terra como Ativo Financeiro e Instrumento de Poder
      Diferente de um projeto de desenvolvimento nacional, a elite fundiária brasileira opera sob uma lógica de extração e especulação. A terra no Brasil não é apenas um meio de produção, mas um ativo financeiro protegido pelo Estado.
    • A Parcialidade do Estado: O alinhamento automático de setores do sindicalismo e do governo com essa elite institucionalizou a luta, muitas vezes desarmando os movimentos de base em troca de políticas compensatórias que não tocam na ferida da concentração.
    • O “Projeto de Ignorância”: A manutenção da violência no campo e o desmonte de órgãos de fiscalização não são falhas de gestão, mas componentes de um projeto que utiliza a força para garantir a grilagem e a exploração predatória de recursos naturais.
    1. Contradições Constitucionais e a Função Social
      A Constituição Federal de 1988, em seus artigos 184 e 186, estabelece que a propriedade rural deve cumprir uma função social. No entanto, a interpretação e execução dessas leis sofrem a paralisia imposta por uma bancada ruralista que sequestra o orçamento e a pauta legislativa.
    • O Impasse: Enquanto o latifúndio recebe subsídios bilionários e perdões de dívidas, a agricultura familiar — responsável por cerca de 70% dos alimentos na mesa do brasileiro — enfrenta a escassez de crédito e a criminalização de suas ocupações legítimas.
    1. Conclusão: A Necessidade da Ruptura Classista
      A análise em paralaxe revela que o Brasil não terá um projeto de nação soberano enquanto a terra estiver concentrada nas mãos de uma elite que, em sua essência, é “estrangeira” ao seu próprio povo. O desenvolvimento real exige a democratização do acesso à terra, a transição para a agroecologia e o fim da tutela do agronegócio sobre as instituições democráticas. A reforma agrária deixa de ser apenas uma pauta humanitária para se tornar uma necessidade estratégica de sobrevivência nacional.
      Referências Bibliográficas e Constitucionais
    • BRASIL. Constituição da República Federativa do Brasil de 1988. Artigos 184 a 191 (Da Política Agrícola e Fundiária e da Reforma Agrária).
    • ESTATUTO DA TERRA. Lei nº 4.504, de 30 de novembro de 1964.
    • FERNANDES, Florestan. Capitalismo Dependente e Classes Sociais na América Latina. Rio de Janeiro: Zahar, 1973. (Fundamental para entender a elite reacionária).
    • PRADO JÚNIOR, Caio. A Questão Agrária no Brasil. São Paulo: Brasiliense, 1979.
    • STÉDILE, João Pedro (Org.). A Questão Agrária no Brasil: O debate tradicional. Expressão Popular.
    • IBGE. Censo Agropecuário 2017. (Dados sobre a concentração fundiária e desigualdade produtiva).