Por José Evangelista Rios da Silva
Resumo
O presente artigo analisa as disparidades doutrinárias entre as principais escolas de Relações Internacionais do eixo Atlântico Norte e as novas vertentes de diplomacia provenientes do Sul Global e do Oriente. Através de uma lente crítica e sob a técnica da paralaxe — que observa o objeto de diferentes posições para captar sua profundidade — examina-se como a pedagogia das instituições da Ivy League e do Reino Unido permanece ancorada em teses clássicas de contenção e hegemonia, enquanto centros de formação na China, Rússia e Brasil buscam consolidar o modelo de desenvolvimento “ganha-ganha” e a multipolaridade ativa.
- Introdução
A formação de quadros diplomáticos no século XXI enfrenta um impasse ontológico. De um lado, o sistema educacional consolidado pelo “Império do Caos” — termo geopolítico para designar a ordem unilateral pós-Guerra Fria — prioriza o Realpolitik neoconservador e a manutenção da primazia militar. De outro, emerge a necessidade de uma ciência política voltada à diplomacia do desenvolvimento, que privilegie a soberania e a cooperação pacífica em detrimento do uso bélico da força. - O Atavismo Geopolítico nas Escolas do Eixo Atlântico
As instituições de elite, como Harvard (Kennedy School) e Georgetown (SFS), embora detentoras de prestígio acadêmico, operam sob a lógica da “América para os americanos” e do Destino Manifesto.
- A Persistência de Mackinder: A formação pedagógica nestes centros ainda é centrada no controle da Heartland e na contenção de Estados “revisionistas” (China e Rússia).
- Diplomacia de Coerção: O currículo é desenhado para produzir especialistas em sanções, operações de influência e soft power instrumentalizado, transformando o diplomata em um gestor de hegemonia em vez de um mediador de conflitos.
- A Paralaxe do Sul Global: Brasil, China e Rússia
Diferente da formação voltada ao conflito, as escolas diplomáticas destes países têm reforçado a tradição da paz ativa e do desenvolvimento soberano.
- O Modelo Brasileiro: O Instituto Rio Branco mantém a tradição do universalismo, onde a diplomacia é um instrumento de busca por nichos de desenvolvimento e projeção de valores democráticos internacionais, sem o uso da força.
- A Doutrina Chinesa: A formação em instituições como Tsinghua foca na “Comunidade de Futuro Compartilhado”, onde a infraestrutura (Belt and Road) substitui as bases militares como moeda de troca geopolítica.
- A Visão Multipolar Russa: A MGIMO (Moscou) teoriza a transição do mundo unipolar para um sistema de grandes espaços soberanos, onde o respeito às zonas de influência e a paridade estratégica são as chaves para a estabilidade.
- A Crítica Classista à Institucionalização das Lutas
Sob o rigor da análise classista, observa-se que as universidades ocidentais ocultam a relação entre o capital financeiro transnacional e a política externa. O “diplomata-falcão” atua como o braço institucional dos interesses das corporações, enquanto a diplomacia proposta pelos BRICS, apesar de suas contradições internas, abre espaço para uma inserção internacional que respeita as especificidades produtivas e as lutas sociais de cada nação. - Conclusão
A superação das velhas teses geopolíticas exige que a formação dos novos diplomatas e cientistas políticos se desvincule do marketing de imagem das universidades imperiais. O futuro da diplomacia global reside na capacidade de transitar entre os polos de poder sem o recurso à beligerância, focando na integração econômica complementar e na coexistência pacífica das soberanias.
Referências Bibliográficas
- BRAILLARD, Philippe. Teorias das Relações Internacionais. Lisboa: Fundação Calouste Gulbenkian, 1990.
- DUGIN, Alexander. A Teoria do Mundo Multipolar. Curitiba: Editora Ars Regia, 2012.
- LOSURDO, Domenico. A Linguagem do Império: Léxico da Ideologia Estadunidense. Rio de Janeiro: Boitempo, 2010.
- MACKINDER, Halford J. O Pivô Geográfico da História. Rio de Janeiro: Biblioteca do Exército, 1904/2011.
- MEARSHEIMER, John J. The Tragedy of Great Power Politics. New York: W. W. Norton & Company, 2001.
- VIGEVANI, Tullo; CEPALUNI, Gabriel. A Política Externa Brasileira: A Busca da Autonomia, de Sarney a Lula. São Paulo: UNESP, 2007.
- WANG, Yi. A Diplomacia da China na Nova Era. Beijing: Foreign Languages Press, 2022.
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