Por José Evangelista Rios da Silva
Resumo: O presente artigo analisa a simbiose entre a Teologia do Domínio e as instituições de segurança pública no Brasil. Investiga-se como o projeto de ocupação de poder por setores neopentecostais utiliza as forças policiais como braço de repressão seletiva e legitimação moral, fenômeno que se intensifica em 2026. Através da lente da paralaxe, observa-se que o que se apresenta como assistência espiritual opera, na verdade, como uma reconfiguração do Estado Laico em direção a uma governança teocrática-militarizada.
- Introdução: O Cenário de 2026 e a “Política do Medo”
No atual ano eleitoral, a segurança pública consolidou-se como o principal preditor de voto. O debate, contudo, não se restringe a índices de criminalidade, mas à gestão do medo através de narrativas de “Guerra Santa”. O dominionismo — doutrina que prega a soberania cristã sobre todas as instituições — encontra nas polícias (PM, PC, PF) e nas Forças Armadas o terreno fértil para a sua manifestação mais pragmática: o controle territorial e social. - A Infiltração Institucional: O Caso UFP e Capelanias
A atuação de programas como a Universal nas Forças Policiais (UFP) transcende o apoio psicossocial. Em 2026, observa-se que a presença de líderes religiosos dentro dos quartéis e academias de polícia funciona como um mecanismo de doutrinação subjetiva.
- A “Batalha do Bem contra o Mal”: Ao substituir o código de ética policial pela escatologia bíblica, o agente público passa a ver o cidadão periférico não como um sujeito de direitos, mas como um “adversário espiritual”.
- Instrumentalização do Estado: A utilização de recursos públicos, viaturas e horário de expediente para cultos denominacionais fere o Art. 19, I, da Constituição Federal, que veda à União e aos Estados estabelecer cultos religiosos ou manter com eles relações de dependência ou aliança.
- Repressão Seletiva e o “Pecador Ungido”
A análise em paralaxe revela que a moralidade dominionista é elástica. Líderes políticos e oficiais alinhados ao projeto são blindados pela narrativa do “ungido de Deus”, cujas falhas são relevadas em nome de uma “missão maior”. Em contrapartida, a repressão é direcionada seletivamente:
- Contra a Diversidade: Aumento de operações policiais que resultam na desestruturação de terreiros de matriz africana, muitas vezes sob a omissão deliberada ou conivência de agentes convertidos ao narcopentecostalismo.
- Controle Territorial: A fusão entre milícia e religião utiliza a força policial para garantir monopólios comerciais e eleitorais em comunidades, sob o pretexto de instaurar uma “ordem cristã”.
- O Impacto nas Eleições: A Teocracia pelo Voto
Em 2026, a “Bancada do Fuzil” e a “Bancada da Bíblia” operam de forma unificada. O uso da estrutura policial para campanhas eleitorais — através da imagem da ordem e da proteção divina — cria um desequilíbrio no pleito. O voto deixa de ser uma escolha de projeto de país e passa a ser um ato de fé, onde questionar o candidato “escolhido” é equiparado a questionar a vontade de Deus.
Referências Bibliográficas e Constitucionais
Referências Constitucionais
- BRASIL. Constituição da República Federativa do Brasil de 1988. Art. 1º (Estado Democrático de Direito); Art. 5º, VI (Liberdade de Crença e Laicidade); Art. 19, I (Vedação de aliança entre Estado e Igreja); Art. 144 (Dever da Segurança Pública).
Referências Acadêmicas e de Pesquisa - CUNHA, Christina Vital. A Fé e o Fuzil: crime e religião no Brasil do século XXI. Rio de Janeiro: Pallas, 2021. (Análise fundamental sobre a simbiose entre neopentecostalismo e o crime organizado/milícias).
- FÓRUM BRASILEIRO DE SEGURANÇA PÚBLICA. A captura simbólica das polícias brasileiras pelos discursos religiosos-conservadores. Relatório Fonte Segura, Edição 308, 2025.
- ALMEIDA, Ronaldo de. A Igreja Universal e seus demônios. São Paulo: Terceiro Nome, 2009. (Estudo sobre as táticas de expansão de poder da IURD).
- OLLIVEIRA, Cecília. “Segurança pública dominará 2026 e fará eleição virar disputa de poder sobre quem mata e morre no Brasil”. The Intercept Brasil, 23 de jan. de 2026.
- PY, Fábio. Pandemia Cristã: Reflexões sobre o Dominionismo. 2020. (Sobre a ocupação dos “sete montes” e a política brasileira).
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