Por José Evangelista Rios da Silva
A iminente vitória de Jeannette Jara, do Partido Comunista (PC), nas eleições presidenciais do Chile, conforme indicado pelas últimas pesquisas de intenção de voto, não é apenas um fato político local, mas um marco de significado histórico e classista internacional. Este evento, com potencial para se liquidar no primeiro turno em novembro de 2025, simboliza o colapso final da ditadura neoliberal e a reemergência da luta popular chilena como farol para o movimento classista mundial.
- O Colapso do Neoliberalismo e a Resposta Classista
O Chile, que serviu como “laboratório” do neoliberalismo imposto pela ditadura Pinochet a partir de 1973 (referência aos Chicago Boys e às reformas de choque), encontra-se agora no limiar de enterrar esse legado. A candidatura de Jara, construída sobre pilares classistas e populares, é o reflexo direto do Estallido Social de 2019 e do fracasso em construir alternativas institucionais (como os processos constituintes).
- A Pauta Inegociável: A projeção de Jara reside em seu histórico como Ministra do Trabalho, onde liderou a redução da jornada de trabalho (45 para 40 horas), reformou a Previdência (PGU) e instituiu o Royalties de Mineração. Essas não são meras reformas sociais; são medidas de redistribuição da riqueza e de recuperação da soberania popular sobre o capital, pautas históricas do movimento sindical classista. Sua vitória será um endosso maciço à necessidade de intervenção estatal e popular para corrigir as desigualdades estruturais.
- A Tática Vencedora: Unidade Popular e Dissipação da Direita
O cenário eleitoral final, com Jara na liderança (26,2%) e a direita profundamente pulverizada entre extremistas (Kast – 21,4%; Matthei – 13,8%; Kaiser e outros), revela uma eficiência tática do campo popular chileno.
Bloco Político Líder e Projeção (%) Implicação Classista
Frente Ampla / PC Jeannette Jara (26,2%) Centralização da Pauta de Classes. Unificação do voto progressista e popular sob uma liderança historicamente ligada ao proletariado.
Extrema Direita José Antonio Kast (21,4%) Ameaça Recuada, mas Persistente. Representa o projeto de repressão e ultraliberalismo. Sua desvantagem no primeiro turno indica sucesso na mobilização antifascista.
Direita Tradicional/Centro Evelyn Matthei (13,8%) Incapacidade de Mediação Burguesa. O centro tradicional burguês (DC/Evópoli/Amarillos) não consegue se apresentar como alternativa crível, perdendo espaço para os extremos.
O cenário de vitória no primeiro turno (acima de 50%) depende do voto de castigo massivo do novo eleitorado (voto obrigatório) das classes mais baixas, que se identifica com a trajetória e as conquistas sociais de Jara. A militância classista deve garantir a mobilização total para liquidar o pleito de imediato, evitando o risco de um segundo turno onde a burguesia poderia se reagrupar taticamente em torno de Kast ou Matthei. O Chile como Farol para o Movimento Sindical Mundial
A provável eleição de Jeannette Jara no Chile tem implicações globais profundas para a luta de classes:- Refutação do “Fim da História”: A ascensão de uma comunista na América Latina, berço do neoliberalismo, refuta a tese burguesa de que a esquerda e o socialismo não têm mais espaço no cenário político global.
- Lição Tática para Sindicatos: O sucesso de Jara demonstra que a conexão direta entre o sindicato (reforma laboral, previdenciária) e o partido político é a via mais eficaz para transformar conquistas de base em poder estatal. A formação de lideranças sindicais deve absorver esta lição: o sindicato precisa de representação política orgânica para defender seus interesses.
- O Desafio da “Fase 2”: A vitória eleitoral é apenas o começo. O movimento classista global deve apoiar e pressionar o governo Jara para que ele não recue diante da previsível ofensiva do capital (boicotes econômicos, desinformação midiática). As lideranças sindicais chilenas precisam estar prontas para o conflito permanente contra o capital, mesmo com um governo popular, para garantir a radicalidade das transformações.
A vitória iminente de Jara é a prova de que a classe trabalhadora, quando unida em torno de um projeto programático claro e com liderança política de vanguarda, pode virar o jogo contra a mais cruel das heranças capitalistas. É um grito de esperança para todos os militantes classistas e sindicais do mundo.
📚 Referências Bibliográficas Relevantes (Para a Análise Classista) - Harvey, David. O Neoliberalismo: História e Implicações. Boitempo, 2005. (Essencial para entender o Chile como laboratório do neoliberalismo e a crise que a candidatura Jara representa).
- Mandel, Ernest. Poder e Dinheiro: Uma Teoria Marxista da Burocracia. Editora da Unesp, 1993. (Útil para analisar a tensão entre o partido na superestrutura e a manutenção dos princípios classistas).
- Lênin, V. I. Que Fazer?. Vários editores. (Relevante para discutir a relação entre a vanguarda (PC) e a espontaneidade da classe trabalhadora (Estallido Social) e a organização política).
- Gramsci, Antonio. Cadernos do Cárcere. Vários volumes. (Para analisar a luta pela hegemonia, o papel do intelectual orgânico e a articulação da Frente Única Popular).
- Artigos e Documentos do Partido Comunista do Chile e da Central Única de Trabalhadores (CUT-Chile). (Para contextualizar as pautas centrais de Jara, como a redução da jornada e a reforma da Previdência, como demandas históricas da classe).
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