Por José Evangelista Rios da Silva
Introdução: O Jogo Dialético da Força e da Fragilidade
No cenário geopolítico contemporâneo, o dito popular “quando se dobra demais, mostra a sua vulnerabilidade” traduz uma lição crucial sobre as dinâmicas de poder e resistência entre as nações. Essa metáfora se aplica diretamente à análise da hegemonia exercida pelo chamado “Império do Caos” — caracterizado sobretudo pela política externa dos Estados Unidos e seu aparelho militar-financeiro — e sua forma seletiva de dominação que, apesar da aparente força bruta, expõe contradições e fragilidades profundas.
Do ponto de vista da militância classista, o imperialismo não é apenas uma política de Estado, mas sim a fase superior do Capitalismo, onde o capital monopolista se expande globalmente, buscando a superexploração da força de trabalho e o controle de recursos estratégicos. Entender essas nuances é fundamental para países como Brasil, Cuba, Venezuela e outros membros da América Latina, cujas classes trabalhadoras enfrentam diretamente a pressão imperial que visa frear o desenvolvimento autônomo e manter a estrutura de dependência.
O Cálculo da Dominação: A Localização do Inimigo e a Vulnerabilidade Interna
O imperialismo estadunidense, na sua fase neoliberal, adota um cálculo frio e pragmático ao decidir os métodos de dominação sobre países que ousam buscar a soberania nacional. A estratégia imperial varia conforme o nível de organização interna e, crucialmente, a localização dos seus agentes.
Em Cuba, onde o processo revolucionário conseguiu depurar as estruturas estatais e populares de agentes externos, os inimigos da autonomia e soberania de seu país estão amplamente organizados fora de Cuba (no exílio, financiados por fundações e pelo próprio Estado imperial). Isso concentra a tática imperial no bloqueio econômico.
Já em muitos países da América Latina, o desafio é mais complexo: os inimigos da soberania, da autodeterminação e do desenvolvimento — aqueles que impedem o rompimento das suas dependências estruturais — estão organizados dentro das esferas de poder. Estes incluem classes dominantes associadas ao capital estrangeiro, elites econômicas e políticas cooptadas, e a presença maciça de órgãos de espionagem e sabotagem dos EUA, infiltrados em agências de segurança, instituições jurídicas e meios de comunicação.
Como a metáfora da vulnerabilidade se desdobra:
- Cuba: O Império “dobra” o bloqueio, evidenciando sua vulnerabilidade moral, mas encontrando resistência na unidade popular interna.
- Venezuela e outros: O Império atua na guerra híbrida, manipulando as fissuras internas e utilizando seus agentes infiltrados (ou cooptados) para minar a soberania. A vulnerabilidade do país se manifesta na fragilidade das suas instituições perante a pressão e espionagem externa/interna.
A esse respeito, uma observação notória sobre a geopolítica da interferência é atribuída a um ex-chefe da CIA, que teria afirmado, em tom cínico e revelador, que “O único país que está livre de golpes e de ameaças no mundo são os EUA, porque não têm embaixada dos Estados Unidos da América”. Essa frase de impacto resume o papel das representações diplomáticas e da inteligência imperial como verdadeiros centros de articulação para a defesa dos interesses hegemônicos em solo alheio.
A Doutrina do Caos e a Vulnerabilidade Ideológica
Com o fim da URSS, o pretexto anticomunista foi reciclado na “luta contra o narcotráfico, terrorismo e criminalidade transnacional”. Esta é a fachada ideal para encobrir o real intuito: manter a hegemonia, desmantelar o Estado de Bem-Estar e garantir o controle dos recursos naturais estratégicos, fundamentais para a acumulação capitalista global.
Essa “dobradura excessiva” na retórica cria uma profunda vulnerabilidade ideológica. A hipocrisia do império do caos, que critica os “pecadores” enquanto mantém seu papel central no financiamento e distribuição do caos global (vide o histórico da Escola das Américas na formação de ditadores, ou a instrumentalização de grupos paramilitares), se torna patente. Ao desestabilizar nações para criar oportunidades de extração de valor, o Império corrói sua própria legitimidade global, abrindo espaço para a multipolaridade e a resistência popular.
Lições para o Brasil e América Latina: A Defesa Constitucional e a Soberania Popular
Nessa conjuntura, o Brasil e seus vizinhos devem aprender que a única resposta sustentável ao imperialismo é a resistência autônoma, a solidariedade classista regional e internacional e, fundamentalmente, a defesa intransigente da sua ordem constitucional soberana.
Para o Brasil, a defesa contra a ameaça externa (militar ou híbrida) e a garantia da soberania nacional é um mandamento constitucional. O texto da Constituição Federal de 1988 (CF/88) é o principal instrumento jurídico de resistência, definindo os pilares de nossa autonomia e defesa: - O Art. 1º estabelece a soberania como um dos fundamentos da República;
- O Art. 4º lista a independência nacional, a autodeterminação dos povos e a não-intervenção como princípios das Relações Internacionais;
- O Art. 142 define o papel das Forças Armadas na defesa da Pátria, na garantia dos Poderes constitucionais e, por extensão, da ordem democrática e soberana.
A verdadeira resistência classista, portanto, passa pela exigência do cumprimento integral da CF/88, pelo fortalecimento do Estado nacional em bases populares, pelo controle sobre o capital estratégico e pela política de distribuição de renda. É a construção de resistências múltiplas que faz a força emergir da unidade e da autonomia, especialmente contra os agentes internos que facilitam a dominação externa.
Conclusão: O Imperativo da Autonomia
A máxima popular revela a dialética entre força e fragilidade na política internacional contemporânea. O “Império do Caos”, ao tentar impor sua hegemonia com pressão econômica, política e militar, deve gerenciar cuidadosamente seus excessos para não demonstrar vulnerabilidades que podem ser exploradas pelos países alvo.
Para o Brasil e a América Latina, a lição é clara: a autonomia não é um ideal romântico, mas um imperativo de classe. Ao rechaçar a submissão e ao construir um caminho de soberania e desenvolvimento sustentável, ancorado na força do povo, na solidez constitucional e na solidariedade regional, podemos ampliar nossa margem de autonomia e aprofundar nossa capacidade de resistência no século XXI.
Referências Bibliográficas Relevantes e Necessárias - BRASIL. Constituição Federal de 1988 (CF/88). (Art. 1º, 4º, 5º, 142 e demais dispositivos de defesa da soberania).
- LÊNIN, V. I. Imperialismo: Fase Superior do Capitalismo.
- MARINI, Ruy Mauro. Dialética da Dependência.
- CHOMSKY, Noam. Hegemonia ou Sobrevivência: A Busca dos Estados Unidos pelo Domínio Global.
- LEOGRANDE, William M. Back Channel to Cuba: The Hidden History of Negotiations between Washington and Havana.
- DAVID, Caio. A Doutrina Monroe e o Destino Manifesto no Século XXI.
- Estudos e documentos sobre a Escola das Américas (SOA): formação militar latino-americana e lógica do combate ao “inimigo interno”.
- OPEU – Artigo “Como o Brasil deve agir diante de disputas hegemônicas na América Latina” (2022).
- The Tricontinental – Revista “Estudos do Sul Global: A atualidade do imperialismo e a luta de libertação dos povos” (2021).
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